O Mistério da Consignia

Publicado: 29 de agosto de 2011 em Uncategorized

O Mistério da Consignia

Depois de anos utilizando a palavra CONSÍGNIA dia após dia de trabalho, dei um Google. Consignía não parece fazer parte da língua portuguesa.  Se ela veio comigo, herança da França, sua justeza não me faz desejar substituí-la por nenhuma outra de meu modesto vocabulário.

Talvez sua força viva em mim impregnada da memória do rigor por vezes impiedoso dos professores da Ècole Jacques Lecoq, ou dos gritos retumbantes da mestra Mnchoukine ” ecoutez la consigne!”.  Mesmo se a despirmos de uma suposta autoridade sábia que a acompanha, é mister respeitar a consígnia. E aí vive todo seu mistério.

A tradução da palavra francesa consigne aparece nas páginas de dicionários como “ordens”  “instruções” ou até mesmo no sentido de  “guarda-volumes”.  Há uma tradução com que simpatizo “orientações ou pressupostos sobre determinado assunto ou atividade que devem ser seguidos para sua correta execução”.  Se bem que a palavra “correta” não se aplica à criação, que é nosso motivo para utilizar incessantemente esta palavra.

Utlizamos as consígnias para propor dinâmicas, estruturas de improvisação e, sobretudo, como itens na criação de composições.

Uma consígnia é o ponto de apoio de onde se pode dar o salto criativo.

É a regra do jogo e a proposição que possibilita o jogo.

Um regulador e um provocador de ações.

Segundo guias de pedagogia, as consígnias pertencem a duas grandes categorias:

-as que precedem um exercício e uma atividade, chamadas de enunciado ou diretiva.

– as que constituem o assunto de um discurso (guiado ou semi-guiado).

Quando as consígnias designam os itens que devem fazer parte de uma composição teatral, sua função é exercer uma diretiva livre, mas sobretudo elas servem à articulação de um discurso cênico. A prioridade que se dá a uma consígnia pode fazer dela o eixo de tensão de uma cena.  A articulação entre as várias consígnias acaba configurando a forma e o discurso da cena.

Uma consígnia desbaratada, inusitada, difícil  (mas com sua relativa pertinência) pode provocar grandes saltos não imaginados  anteriormente pelo criador que se vê obrigado a resolvê-la.

Nesta troca com o Lume, vi-me ambiciosa em minhas consígnias aos atores.  Os atores do Lume  trabalhavam em grupos com as atrizes do Opovoempé, acostumadas a receberem consígnias de composição ( e sempre entusiasmadas com elas).  Confiando na complementaridade das experiências de ambos os grupos, gradativamente aumentei o grau de dificuldade das propostas.  Em segredo, confesso que pensei inúmeras vezes “meu deus, como eles irão resolver isso?”. E foi fascinante, ver que montavam seus quebra-cabeças com alegria e cara-de-pau infinitas.  Desisti de meu caderninho de anotações para simplesmente embarcar no terreno fértil das imaginações em movimento. Ri muito. E me diverti a cada resolução inesperada, cada solução surpreendente. Saltos maiores que o previsto.

A restrição se apresentou como o caminho da liberdade. ( Cada vez mais acredito na arte que lida e libera as impossibilidades).

Neste momento do Rumos, sinto viver uma consígnia difícil: apresentar uma pesquisa que ainda está em movimento. Este salto só poderá ser dado conjuntamente pelos dois grupos num ato de risco e confiança. Que nós saibamos lidar bem com esta restrição, essa consígnia que a abrirá o guarda-volumes das nossas imaginações-  para o encontro com o outro.

 

por Cristiane Zuan Esteves

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